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  • Abr

    04

    2019

É preciso valorizar

Em tempos cada vez mais bicudos, é preciso valorizar a posição ocupada no mercado de trabalho. Os sinais de que a economia ainda não vive o seu melhor momento estão evidentes e o Brasil ainda não conseguiu achar o melhor viés para retomar seu crescimento.

Segundo fundações especializadas no setor econômico, a taxa de desemprego no Brasil cresceu em março. De acordo com dados divulgados 12,7 milhões de brasileiros estavam sem emprego no trimestre entre novembro de 2018 e janeiro de 2019, o equivalente a 12% da população apta para trabalhar. Se comparado aos três primeiros meses do ano esse número chega a 12,4%.

Os números já preocupam os analistas. Segundo esses mesmos estudiosos, metade das perdas atingiram o setor privado e a outra parte do setor público.

As taxas de desemprego no Brasil vão cair em 2019 e 2020. Mas o avanço na criação de postos de trabalho será lento e o país corre o risco de ter de esperar "anos" até ver as taxas retornarem para níveis registrados antes da recessão. O índice brasileiro de desemprego é ainda mais de duas vezes superior à média mundial, de cerca de 5% em 2019. 

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a queda na taxa de desemprego está ligada à recuperação da economia. Em 2018, a expansão foi de apenas 0,7%. Mas a perspectiva da entidade é de que o crescimento seja de 2,4%, em 2019.

Em números absolutos, o total de brasileiros desempregados passou de 13,5 milhões de pessoas, em 2017, para 13,3 milhões ao final de 2018. Para 2019, o total chegará a 13,1 milhões e, em 2020, o número será de 12,7 milhões.

Apesar da queda, o departamento de pesquisa da OIT estima que um retorno a taxas de 7% de desemprego no Brasil não ocorrerá no curto prazo. O índice havia sido registrado antes de 2014.

Para que esse número tenha uma melhora mais rápida, um forte aumento de demanda teria de ser registrado na economia nacional. A OIT tampouco acredita que, de imediato, a reforma trabalhista possa dar um impulso e os resultados teriam de ser aguardados para os próximos anos.

As taxas brasileiras, mesmo sofrendo queda, continuam entre as mais elevadas do G-20, o grupo que reúne as maiores economias do mundo. No México, o desemprego deve ser de 3,4% em 2019, contra 3,9% nos EUA e 6,1% no Canadá. No Japão, o índice será de 2,4% contra 3,7% na Coreia.

De acordo com a OIT, a Austrália deve fechar o ano com a taxa de 5,3%, contra 4,4% na Indonésia, 3,2% na Alemanha, 3,8% no Reino Unido e 4,5% na Rússia. França, Itália e Turquia contam com taxas de desemprego que variam entre 9% e 11%. Mas, mesmo assim, abaixo da média brasileira dos últimos anos.

No geral, a OIT estima que 172 milhões de pessoas estavam desempregadas ao final de 2018, o equivalente à taxa de 5%. Essa é a primeira vez que, desde a eclosão da crise financeira, em 2008, os níveis globais retornaram para o patamar de 5%. Para 2019 e 2020, a previsão é de que a taxa fique inalterada. 

Diante de tantos números nada animadores, o recado que fica aos trabalhadores é que busquem desempenhar cada vez melhor o seu papel. O desemprego nem sempre escolhe os menos aptos, mas atuar de forma dinâmica e comprometida pode minimizar os efeitos nefastos do desemprego. No comércio, a atuação dos profissionais de venda é de suma importância e contribui diretamente para o sucesso.

 

Comércio e serviços

Durante as últimas décadas, os setores de comércio e serviços funcionaram como uma verdadeira locomotiva, quando foi responsável pela geração de 85% dos novos empregos. Em 2015, o setor não somente deixou de criar como destruiu 500 mil postos de trabalho. Por que isso preocupa?

Os setores de comércio e serviços sempre funcionaram como uma válvula de escape. Os trabalhadores expulsos da agricultura, da indústria e da construção civil eram acomodados nesse setor ao abrir um barzinho ou uma pequena barbearia ou fazendo serviços pessoais e domiciliares de costura, manicure, pintura, hidráulica etc.

Comércio e serviços congregam mais de 70% da força de trabalho (muitas mulheres chefes de família) e responde por mais de 70% do produto interno bruto (PIB). É um setor intensivo em mão de obra de todos os níveis e que responde pela maior parte da renda das famílias. A maioria dos empregos se concentra nas micro, pequenas e médias empresas.

Num momento em que esse setor encolhe de maneira tão abrupta, fica a pergunta: para onde vão os novos desempregados?

Uma parte dos desempregados enfrenta as despesas familiares com os recursos das rescisões contratuais. Mas, estes têm pouco fôlego e acabam logo, gerando danos sociais às famílias.

Outra parte busca ganhar a vida como trabalhadores por conta própria. Somente em 2015 eles aumentaram 4,5%, quase 1 milhão de pessoas. Mas, a maioria cai no trabalho precário, porque dos 22 milhões pessoas que trabalham nessa condição, apenas 5 milhões tem as proteções sociais parciais do Programa do Microempreendedor Individual (MEI), aliás, um grande sucesso. Em 2015, a informalidade aumentou em média 5%. Na agricultura e no comércio e serviços, a incidência foi espantosa.

Ou seja, o esfriamento do emprego no comércio e serviços está criando para milhões de famílias um beco sem saída. Trata-se de uma deterioração bastante grave e decorrente do desempenho desastroso daquele setor. Em 2015 foram fechadas 100 mil lojas no Brasil. As vendas despencaram, em média, 4,3%, a maior queda na série histórica iniciada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2001. Há segmentos em que a redução foi muito maior.

No caso de móveis e eletrodomésticos, a queda foi de 14%; em tecidos, calçados e vestuário, 8,7%; combustíveis e lubrificantes, 6,2%; e até os supermercados amargaram a redução de 2,5% nas vendas.

No chamado comércio varejista ampliado (que inclui veículos e construção civil) as quedas foram mais fortes, a saber, veículos em geral, 17,8% e materiais de construção, 8,4%.

O faturamento dos serviços também caiu 3,6% em média. Os serviços profissionais e administrativos encolheram 8,8%, a prestação de serviços às famílias, 7%, transporte e correios, 6,7% e transporte aéreo, 4,5%.

A contração das atividades nos setores de comércio e serviços afetou a vida das pessoas de alta e baixa qualificação. A suspensão e a redução de investimentos nas áreas de infraestrutura e comunicações contribuíram para reduzir a demanda por engenheiros outros técnicos. A desterceirzação dos serviços de limpeza, segurança, manutenção de imóveis etc. afetou os trabalhadores menos qualificados. 

Os fatores de contração da atividade econômica que geraram o quadro em 2015 estão presentes em 2016 e tudo indica que as quedas no emprego do comércio e dos serviços vão se aprofundar. Em janeiro de 2016, a queda nos serviços foi de 5% e no comércio 9% em relação a janeiro de 2015.

A situação é apreensiva porque os brasileiros estão ficando sem saída. Com a redução do emprego na indústria, na construção civil e agora no comércio e serviços as pessoas não têm para onde ir.

Sem emprego, sem perspectiva e sem renda, isso pode detonar movimentos sociais de importante gravidade, com reflexos na estabilidade das instituições democráticas.

O Brasil precisa dar uma virada e voltar a crescer. Para isso, impõe-se o ressurgimento da confiança. 

 

Luiz Antonio Guarnieri é Presidente da Acimm